Faltou entrosamento ao Espantalho do Bregjo

Por Serpa Di Lorenzo

Na primeira metade da década de 70, o time do Guarabira Esporte Clube havia realizado vários investimentos em seu departamento de futebol profissional, adquirindo moderno material esportivo para jogos e treinamento, reformando a concentração, o refeitório e pintado tudo nas cores azul e branca.

Em seguida convidou o experiente Manoel Veiga para treinar a equipe. Jogadores de várias cidades foram contratados para, junto com as revelações locais, disputar o certame estadual. Era um time mesclado de talentos jovens com a experiência de jogadores já rodados em outras agremiações, como Lula, Vavá, Guri, Vandinho, Pereira, Jonildo e tantos outros. A ideia era repetir a performance da campanha de 1969, quando o aguerrido esquadrão do “Espantalho do Brejo”, desclassificou o Campinense Clube e classificou-se entre os primeiros do certame patrocinado pela Federação Paraibana de Futebol.

O Dr. Roberto Paulino havia deixado a presidência do “Espantalho do Brejo”, há poucos meses, e quem o substituiu no cargo foi a empresária e sua tia Maria Paulino. Inegável o esforço e o incentivo da família Paulino no desenvolvimento do futebol daquela cidade. Sempre estiveram presente

Ocorre que o time já havia disputado cinco jogos consecutivos e ainda não havia ganhado nenhuma partida. Tinha perdido três e empatado duas, sendo que, os empates ocorreram em seus domínios, no Estádio Sílvio Porto, e, com todo o respeito aos adversários, jogando contra equipes consideradas fracas.

Antes do treinamento daquela segunda-feira, Manuel Veiga fez uma reunião com os atletas e passou a questionar a falta de bons resultados, o que estaria faltando para a equipe render o esperado pela torcida e almejado pela comissão técnica? Todos deram a sua opinião. Uns achavam que a defesa estava falhando muito e sobrecarregando o goleiro. Outros elegeram a falta de pontaria dos atacantes que resultava no baixo índice de gols. Várias foram as hipóteses. O que todos concordavam era que a equipe se ressentia de um maior “entrosamento” e que isso só seria resolvido com a sequência dos jogos.

Como ela costumeiramente gostava de fazer, de repente chegou ao local de treinamento a presidente Maria Paulino, descendo de seu vistoso Ford Galaxie, de cores amarela e branca, portando um cigarro na boca, e foi logo em direção aos jogadores e comissão técnica. Logo atrás dela veio o seu motorista conhecido por Cadete. Educadamente, cumprimentou o treinador Manoel Veiga apertando-lhe a mão, em seguida deu um bom dia aos jogadores que ato contínuo responderam timidamente ao cumprimento. Manoel Veiga, para quebrar o gelo, foi logo dizendo: – Presidente, acabamos de fazer uma avaliação sobre a equipe e os fracos resultados obtidos. Enquanto ele falava, ela escutava atentamente a explanação sobre as deficiências, o planejamento, a matemática para a classificação, enfim, tudo explicado aos mínimos detalhes. Ao final do relatório o treinador enfatizou e deu muita ênfase na ausência de “entrosamento” prejudicando muito e sendo o fator primordial no pífio desempenho do “azulão do brejo”. Enfim, disse-lhe ele, com a chegada do “entrosamento” nós vamos começar a vencer.

Mal ele encerrou a sua explicação, Dona Maria Paulino chamou o seu motorista e pediu-lhe que fosse ao carro pegar a sua bolsa. Ela sentou-se em uma mesa improvisada, abriu a sua carteira e tirou de seu interior um talão de cheque do Paraiban, assinou uma folha em branco e entregou a Manoel Veiga, dizendo: – Vá com o motorista em meu carro com esse cheque em branco e só me volte trazendo contratado esse tal de “entrosamento” para jogar no Guarabira.

Deixando os Causos & Lendas do Nosso Futebol de lado, temos a certeza que Dona Maria Paulino, a primeira mulher a dirigir um clube de futebol profissional no estado, escreveu o seu nome com tintas douradas e perpétuas na brilhante história do futebol paraibano.

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SERPA DI LORENZO – Colunista, cronista esportivo, delegado da Polícia Civil da Paraíba e ex-auditor do TJDF-PB