Em pé: Wellington Periquito, Iedo Canhão, Chico Branco e Sérgio Peba. Agachado Idelfonso Cabeção.

Cada pedra que caía doía no coração

Por Serpa Di Lorenzo

A seleção brasileira tinha conquistado brilhantemente o tricampeonato mundial no México, com um time que nunca mais será visto na face da terra. O Clube de Regatas Vasco da Gama, conquistara o campeonato carioca, e, na Paraíba, o nosso Botafogo de Chico Matemático, Fernando, Odon, Santana, Valdo, Zezito e tantos outros conquistou o tricampeonato. As rádios tocavam Beatles, Roberto Carlos e bossa nova. Os filmes eram assistidos nos cinemas Municipal, Plaza, Rex e no Metrópole, este último na quinta-feira, na sessão dos miseráveis, onde se pagava apenas um ingresso e se assistia dois filmes.

Eu era menino, chamado pela reca de Chico Branco, forma encontrada para diferenciar do amigo Chico preto. Eu saía do meu lar, todos os dias, depois da obrigação escolar, para uma residência existente na esquina das ruas Sílvio Almeida com a Joaquim Santiago, de nº 556. Casa que com esmero levou muitos anos para ser construída pelo patriarca João Velho, que trabalhava para as bandas do Maranhão. Na casa residiam a matriarca dona Angelita, mulher alta, bonita e muito educada, três filhas(Ieda, Inalda e Ilma) e três filhos, sendo os meninos denominados de Iedo Canhão, Inaldo cavalo e Idelfonso Cabeção. Esses amigos/irmãos, nos receberam diariamente em sua casa. Lá brincávamos de tudo: roubávamos frutas no sítio de Dário Doido, andávamos de bicicleta, puxamos carrinho de lata, pião, nota de cigarro era nosso dinheiro, perna de pau, barra-bandeira etc. Todavia, o melhor de tudo era o futebol. Iedo e Inaldo tinham um time de garotos que a gente fazia questão de jogar nele. O time de Iedo era o Vasco, o de Inaldo era o Flamengo. Eu, Chico preto, Idelfonso cabeção, Wellington periquito, Sérgio peba, Sérgio bode, Paulo biruquinha, Junior Elefante, Darnley dos galos, Joca macaco, Zé Frango, Leleu pigmeu, Neguinho Estevão, Sapera, Gil, Adilson gaguinho, Rubinho, Crisólogo eram os atletas das equipes. Os nossos jogos eram em vários campos então existentes no bairro: da Portuguesa, do Agave e no campo de Pedro Gondim. Mas o nosso reduto era um campo que existia em frente da casa deles, chamado de “Campinho de Inaldo”, uma homenagem a outro Inaldo, que morava ao lado e que comandou por muitos anos a excelente equipe amadora da Portuguesa dos Expedicionários.

Naquele campinho a gente era imbatível. Antes dos jogos, a gente recebia as camisas do time na casa de Iedo, bebia água e apenas atravessava a rua para entrar no campo. Após os jogos, voltávamos para aquela casa enorme, de primeiro andar com portas e janelas de madeira de lei, sentávamos na grama do jardim e discutimos o resultado. Sempre sendo observados pelos atentos olhos paternos do velho Zuza, um senhor que era uma espécie de caseiro faz tudo.

Aquela casa não tinha muros altos, não tinha cerca elétrica, não possuía alarmes, nem vigia armado e nem cara feia. Ela tinha as bênçãos dos céus, bastante generosidade e uma harmonia que hoje os aparelhos, elétrico eletrônico e o progresso destruíram. Daquela casa saímos várias vezes para o estádio Olímpico José Américo de Almeida, assistir jogos e treinos do Botafogo Futebol Clube. Andávamos por todas as dependências do clube e quando possível, treinamos no infantil do time mais vezes campeão do estado.

Enquanto a gente brincava, seu João Velho trabalhava muito no Maranhão e ia aos poucos transformando aquela casa em uma mansão. Ao lado dela, tinha um terreno baldio que a gente também batia, nossas peladas, apesar da existência de uma frondosa mangueira e um delicioso pé de seriguela. Foi nesse terreno, que Sérgio bode quebrou e abandonou uma garrafa de refrigerante, retirada “emprestada” de um caminhão que abastecia a mercearia de Bernardo. Fui pegar a bola e pisei nos cacos existentes no fundo da garrafa, que entraram no meu pé causando um enorme corte, só estancado quando me colocaram na rural verde de seu João Velho e me levaram ao pronto socorro então existente no centro da cidade. “O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo”. Disse o poeta Mário Quintana. Crescemos. Casamos. Muitos foram morar em outros estados. Uns, foram chamados prematuramente de volta por papai do céu, como Joca Macaco. Outros, simplesmente sumiram fisicamente e passaram a existir apenas no nosso imaginário. Na semana passada, cinco décadas depois estou eu indo assinar o ponto no prazeroso Casa Bar (antiga mercearia de Bernardo) passei naquela rua e como sempre olhei para aquela casa e não acreditei no que vi; um trator estava derrubando-a, pedra por pedra. Sem acreditar no visto por minhas úmidas retinas, entrei apressado no bar e comecei a contar para os amigos. Lúcio zero pegou o violão, Josinaldo bebinho o atabaque, Walfredo macaxeira o maracá e cantamos assim:

“Cada pedra que caía, doía no coração

Dim-dim donde nós passemos os dias felizes de nossas vidas.

Saudosa maloca, maloca querida”

____________________________

SERPA DI LORENZO – Colunista, cronista esportivo, delegado da Polícia Civil da Paraíba e ex-auditor do TJDF-PB

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *